AURORA EM ESTADO DE GRAÇA E POESIA


Há tempos venho devendo um ensaio, uma crítica sobre a obra de uma das vozes femininas mais distintas da poesia maranhense. Refiro-me a uma poeta que já tem poesia no próprio nome: Aurora da Graça Almeida. Certamente, nesses tempos em que o feminismo não é apenas uma questão de afirmação política do feminino, mas uma luta sem trégua para que a mulher seja enfim reconhecida em todos os campos, a voz poética de Aurora da Graça reclama, cada vez mais, o devido reparo da crítica e a atenção que sempre exigiu entre nós. A bem da verdade, a poesia maranhense, ao longo do século XX, foi ocupada por vozes masculinas poderosas, como a de Ferreira Gullar, José Chagas, Bandeira Tribuzi, Nauro Machado, o que certamente inviabilizou a apreciação de outras vozes, sobretudo femininas, no contexto da produção literária que se afirmou ao longo do período. É preciso, sem dúvida, considerar uma dose significativa de falocentrismo em tudo isso, uma vez que, apesar do Maranhão ter gerado a primeira voz feminina do romance brasileiro, Maria Firmina dos Reis, a presença de mulheres na produção local sempre esbarrou em um denso véu de silêncio e, porque não dizer, de preconceito explícito em relação à literatura produzida pelas representantes do gênero no campo literário. Desde o século XIX, Maria Firmina dos Reis e algumas vozes femininas solitárias têm disputado posições no campo literário massivamente masculino, e apenas a partir da segunda metade do século XX é que escritoras e poetas começaram a surgir e a ser reconhecidas com mais frequência no cenário da produção literária do Maranhão. Entre essas vozes constelares, que começam a dar uma feição peculiar e própria à literatura produzida por mulheres em um dos estados com um dos mais antigos e consolidados sistemas literários do Brasil, decerto figura a obra ímpar e fecunda de Aurora da Graça Almeida.
A obra de Aurora é uma das finas e elegantes que a literatura maranhense tem produzido nos últimos 40 anos, já devidamente consolidada, tendo chamado inclusive a atenção de alguns poetas e intelectuais nada invulgares, a exemplo de Carlos Drummond de Andrade, Arlete Nogueira da Cruz, José Chagas, Carlos Cunha, Marcia Tiburi, e até mesmo um contato breve com Clarice Lispector, de forma que, a despeito de relativo silêncio crítico sobre sua produção, sua escrita atraiu e tem atraído a atenção meritória do campo literário e época em que tem produzido seus livros. Com certeza, o dilatado espaço de publicação entre as obras, somado ao fato de que Aurora da Graça não fez questão de ser outro medalhão do meio, ostentando sua presença e figura entre os escritores, contribuiu para que sua produção ficasse ao largo dos nomes que circulam com mais destaque entre os agentes do campo. Contudo, a despeito dessa ausência relativa, a produção de Aurora tem apenas crescido, tornando-se distinta desde o primeiro livro, Cavalo dourado (1977) até o mais recente, a coletânea de inéditos e de todos os demais títulos, O tempo guardado das pequenas felicidades (2009), no qual reúne uma vasta reunião de poemas, demonstrando um alentado e inventivo fôlego, o que confirma que sua contribuição para a literatura produzida no Maranhão vai muito além dos poucos títulos publicados em um intervalo considerável de anos, desde 1987, quando de seu Memória da Paixão.
Entretanto, o que exatamente Aurora da Graça Almeida tem a nos dizer em seus delicados versos? Qual exatamente a matéria com a qual trabalha, da qual arranca a tessitura de seus textos? Qual exatamente o sopro de angústia ou motivação existencial que conduz Aurora à expressão poética? Tais questionamentos, a despeito das respostas, são respondidos em parte desde o primeiro livro de Aurora, que já nasce com um estilo e uma expressão muito próprios, que nos revelam a cada livro uma poeta que não está preocupada com uma dicção grandiloquente ou, em outro sentido, desvelar-nos formas inéditas de composição e experimentos vanguardistas. Aurora da Graça Almeida é uma poeta do humano, em todos os sentidos possíveis, mas de um humano que retira, da matéria do cotidiano e até dos eventos mais banais da existência, a matéria lídima de sua reflexão poética, marcada por versos e imagens que nascem de construções discursivas eivadas de um ritmo espontâneo, muito pessoal, e que a aproxima muito de outras poetas que extraem dessa mesma matéria o canto que as singularizou, pontuado pelo mais intenso e expressivo confessionalismo, como Adélia Prado ou Cora Coralina, por exemplo. No entanto, não há nos versos de Aurora o diálogo algo religioso bem peculiar de Adélia ou as notas memorialistas de Cora Coralina. A trajetória de Aurora singra por outros oceanos, em que o diálogo com o divino ou com a memória tem outras tonalidades, muito próprias de uma mulher que deseja exprimir-se por meio da palavra não apenas pelo desejo de um exercício vocabular de natureza intelectual, mas porque há uma necessidade emocional e ontológica de manifestar o seu assombro e sua percepção do tecido existencial, cujos fios são desvelados através de seus versos repletos de uma pulsante vitalidade feminina, como em Esperança vã:

A manhã me nutre de esperança
e não vens
a manhã me comove pela praça
e não vens
a manhã comparece e jorra luz
vaza telha transparente
e não vens
a manhã se mistura com a brisa
muitas águas maré alta
concretiza sua essência
e não vens
a manhã me insinua que tu vens
nalguma tarde
embriagada de manhã.

Dir-se-ia que Aurora extrai, portanto, do confessionalismo emocional a força da expressividade espontânea e genuína de seus versos, marcados por um ritmo natural, que é o ritmo natural do discurso, no entanto atravessado por uma necessidade de dizer que desautomatiza a percepção das construções vocabulares mais comuns que, enfeixadas através de uma sequência repleta do pathos da experiência, da emoção e da percepção plástica da língua, explodem em verdadeira poesia, ainda que despida dos trajes austeros do verso de tons mais rebuscados. Isso porque a poesia de Aurora não dá sinais de que pretende ser uma poesia rebuscada, pretensiosa do ponto de vista acadêmico, ou, como alerta magistralmente Drummond em uma correspondência à autora: “Vejo que para você a poesia não é simples exercício verbal, mas sim uma forma de existir e sentir-se existir, com emoção e percepção interna dos versos, das situações e das coisas.” E o mestre de Itabira conclui: “Poesia viva, portanto”.




E é dessa ordem de poesia, ainda rara entre os poetas brasileiros, da qual estamos falando. Uma poesia sumarenta, feita da mais pura matéria existencial, da própria vida do artista, que não tem a pretensão intelectual, no entanto, de ser apenas um artesão linguístico, um sofisticado e por vezes abstruso artista da palavra e da língua, mas simplesmente o artista que tem a necessidade linguística e artística de exprimir-se, de ser e de existir, e transformar em poesia o próprio tecido da vida, forjando, através do verso, uma arte que dispensa o exercício verbal que pretende rasgar o tecido linguístico da expressão, mas justamente aproveitar a pulsão erótica, a pulsão emocional, a pulsão da própria percepção, em estado de assombro, a fim de extrair, da matéria confessional, rasgos de uma expressão sincera, mas despojada. E, ainda assim, de uma genuína força poética, rara até mesmo entre as constituições poéticas mais consagradas, ou entre os poetas capazes de conduzir o idioma aos experimentos linguísticos mais radicais, e que, no esforço, perdem a comunicação com o humano e com a existência, forças que, quando ignoradas em uma obra poética, a tornam alienada, vazia, um belo objeto de arte pela arte, mas que não conta com a participação viva e vívida do leitor que busca, no verso, a transubstanciação da matéria inerte da existência e da vida em poesia. Que outros artistas, ao longo do século XX, que também trilharam por senda semelhante? Um nome, muito aparentado à poesia que Aurora cultiva, é o de Jacques Prévert, na França, e aqui no Brasil, além das poetas já citadas, a voz de Carlos Drummond de Andrade, que também soube perceber a profunda conexão que há entre a confissão, através da força pulsante de uma poesia mais despojada, e a própria vida.
Aurora nos fornece a todo momento o testemunho disso em uma produção repleta de poemas curtos, entre outros menos curtos, onde a vida, em ritmo cativante, assalta-nos através de uma delicada e sentida elegância verbal:

Estirada no varal do coração
escorre o que não digo ou sinto
a palavra
paz.

....

Contemplar a noite e vê-la arrastar-se
pelas entranhas dos que ainda esperam em vão
entre o que pulsa e o que adormece
em quietude
desafio constante entre desejos
afagos martírios e lembranças
viver
entre o escuro e o clarão prometido do dia
guardião de olhos abertos
sentinelas da espera
viver
enquanto te exclues
e te eximes de mim.

...

Enquanto dormes
tua alma vagueia
engana teu sono
estremece tuas entranhas
deságua em tua boca
e move o insuportável.

...

Quisera não ter pernas
meu riso se espalharia

quisera não ter pernas
usaria minhas asas

quisera não ter mãos
o poema se calaria

quisera não ter olhos
o escuro seria imagem

quisera não ter alma
seria irmã do robô

quisera não ter febre
fosse brasa camuflada

quisera não ser estilhaço
que a palavra fere e cala.

...

Minha morte
não transmitam na televisão
não anunciem aos que não me amaram
não revelem aos que não souberam como sou
alegre ou contundente

abstenham-se de um choro que não quero
matriculem-se na lembrança mais longínqua
de vosso coração
não permitam que conversem ao meu redor
se tantas vezes ninguém me ouviu
tão perto de mim
não façam de meu silêncio definitivo
palco de vossas vozes excitadas
comedidas ou tranquilas

se tantas vezes o que disse
não tocou vossos ouvidos
agora não me falem o que não ouço.

...

A mulher veio primeiro
cabelos mais brancos que neve
pés expostos ao frio

o homem negro
sob chapéu de abas largas
cinza de cor seu paletó
pede poucos pães

o rapaz adentra
quer café quente e açúcar
cabelos negros de moldura
para sua face
bela

entra outras mulheres
com suas vestes rancheiras
aprumadas sob o frio de Minas
escolhem leite frio

sobre o balcão o caderno de notas
crediário para os que alongam sua dívida
de pão.

...

O café da manhã
me supre em seiva
me socorre
e só, corro
para o dia.

Tais exemplos, e muitos outros, servem para testificar a capacidade desassombrada e natural de Aurora de lidar com os elementos e recursos mais singelos, perceptíveis no tecido do idioma, para fabricar a sua poesia de tons confessionais, emotivos e genuinamente poéticos. E isto é revelador de uma poeta que tem consciência absoluta do repertório instrumental que domina para obter os efeitos insólitos que alcança em níveis expressivos.
O grupo francês OULIPO (Ouvroir de Littérature Potentielle ou Ateliê de Literatura Potencial), em décadas de experimentação e pesquisa chegou à conclusão de que a perfeita consciência das regras linguísticas e formais que permitem a produção do texto poético é que distingue os poetas mais talentosos daqueles que não têm absoluta consciência e domínio dos recursos expressivos que utilizam para a produção literária. Em outros termos, um poeta que afirma que não obedece regras e recursos formais para exprimir-se em termos poéticos é porque desconhece as regras e recursos formais que utiliza o tempo todo. Ou seja, não possui consciência de seu próprio fazer poético, porque todos, ao cultivar um artesanato qualquer, incluso o linguístico, desenvolvem também um conjunto de instrumentos próprios com o qual criam um estilo, uma marca expressiva que os distinguem de outros. Com Aurora da Graça tal inconsciência não se dá em nenhum momento. Utilizando de modo intencional uma expressão despojada e até mesmo singela, Aurora é senhora completa do seu ofício, pois tem um absoluto domínio de seus recursos expressivos, uma vez que controla o fluxo verbal discursivo como poucos, tornando-se assim muito distinta da massa enorme de versejadores vulgares e prosaicos, que se esforçam sem sucesso por arrancar verdadeira matéria poética da confissão, mas não conseguem porque não percebem com agudez, perspicácia e sensibilidade o andamento rítmico da língua, a beleza plástica das ferramentas vocabulares, cujo mister não necessita de formação teórica ou absoluto empenho retórico e intelectual em dominar todo o repertório moderno ou clássico da versificação, mas tão somente uma consciência linguística sensível e fecunda, atributos que são fartos na obra de Aurora da Graça Almeida, a poeta que já tem, em seu próprio nome, uma pequeno poema que sela o seu fado, assinalando, assim, o nascimento à criação literária.
Muito além de uma simples professora que eventualmente faz versos, Aurora da Graça Almeida, com sua sensibilidade feminina ímpar e notória capacidade expressiva de lidar com a plasticidade espontânea da língua, produziu e tem produzido, nos quadros literários da poesia no Maranhão, uma obra singular, ornada com a simplicidade despojada de versos algo prévertianos, inundados dos ritmos e imagens da existência e do cotidiano, que também nos inundam de uma percepção da vida que, em tempos assinalados pela brutalidade e pela barbárie, exigem que retornemos à doce e singela poesia das auroras em estado de graça.

Ricardo Leão


poeta e ensaísta


Comentários

  1. Belo ensaio desse amigo, Ricardo Leão, que é excelente poeta e arguta ensaísta. Aurora da Graça e sua delicada poesia estão a merecer mais espaço.

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